04.09.25
Jenny Diski, no livro "Desconhecida num comboio":
"Por vezes, quando tenho um dos gatos no colo, experimento uma daquelas raras sensações de existir inteiramente no momento presente, de apreender a realidade daquele momento com uma luz ofuscante e de fazer parte de qualquer coisa extraordinária. Pasma-me que uma criatura de outra espécie, absolutamente diferente de mim, me honre com a sua presença e confiança, sentando-se no meu colo e permitindo-me que a afague. Nessas alturas, sinto que esse instante doméstico comum é tão colossal como estabelecer contacto com outra vida inteligente, noutra ponta do universo. Esta criatura, com a sua consciência, outra consciência, e eu com a minha temos a capacidade de ficar sentadas em silêncio, a desfrutar da presença uma da outra. É notável.
Aliso o pêlo do gato, sentindo-lhe os músculos sob a pele flácida, e percorro a estrutura do seu esqueleto, espinha dorsal, omoplatas e crânio, com os meus dedos massajadores, enquanto ele ali fica e ronrona ao prazer do contacto físico, encorajando a exploração das minhas mãos com marradinhas da cabeça e do corpo contra elas, virando a carinha de um lado para o outro. Para receber atenção extra aqui ou ali. É uma cena perfeitamente quotidiana, mas, por vezes, o facto de outro ser vivo me admitir na sua vida deixa-me sem fôlego."