26.12.24
O sono diurno também é bom. No calor do dia, depois de nos termos levantado muito cedo, deitarmo-nos, em plena luz do dia, nos cumes e cair no sono e dele sair é um dos luxos mais doces da vida. Porque adormecer na montanha tem o delicioso corolário do acordar. Sairmos da desorientação do sono e abrirmos os olhos para a encosta escarpada e para a ravina, espantarmo-nos porque nos havíamos esquecido de onde estávamos, é recuperar algum desse prístino assombro raramente saboreado. Não sei se é uma experiência comum (não é, certamente, vulgar no meu sono normal), mas quando adormeço ao relento, talvez porque o sono ao relento seja mais profundo do que o normal, acordo com a mente vazia. A consciência de onde estou regressa quase de imediato, mas, durante um breve momento, olhei com surpresa para um lugar familiar como se nunca antes o tivesse visto.
Nan Shepherd, em "A Montanha Viva".