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Posto de Escuta

Achados numa página ou rua algures.

Achados numa página ou rua algures.

10.01.25

Ainda Casimiro de Brito, no seu "Arte da respiração":

"Na Basílica de S. Pedro há de tudo: máscaras, espelhos, reflexos, simulacros, vendilhões, labirintos... Deus, não vi. Nem seria possível escondê-lo melhor. E no entanto só o encontrei — o sentido que dou à palavra — quando recolhi os meus olhos cansados na música de mármore da Pietárespiração pura que merecia só para ela um templo vazio com a dimensão do planeta."

10.01.25

George Steiner, no seu "Errata: revisões de uma vida", relembra os métodos de instrução que o seu pai utilizava consigo:

"Não me era permitido ler nenhum livro novo até ter escrito, para sua inspecção, um resumo daquele que acabara de ler. Caso não tivesse percebido um determinado passo — as escolhas e sugestões do meu pai eram sempre criteriosamente direccionadas um pouco acima da minha cabeça — deveria ler-lho em voz alta. Frequentemente, a voz esclarece um texto. Se a incompreensão persistisse, tinha decopiar o excerto relevante na minha caligrafia — actividade que, geralmente, acabava por desvendar o filão."

07.01.25

"Não escamoteemos o oculto, o corpo que se esconde nas franjas do visível. Há que olhar de novo o elemento imaterial que a Idade Média convertia em símbolo - figurar o que não se vê nem ouve nem palpa; ensaiar todas as chaves nessa porta que ninguém sabe onde está, «essa porta aberta (que) mostra apenas, defronte, uma porta fechada» (Pessoa). Por isso fico horas diante do mar a interrogar o caos, as fendas da sua lei. Faltam-me as palavras mas vou olhar até encontrar, regressar."

Casimiro de Brito, em "Arte da respiração".

07.01.25

"Estranha irrealidade, pensou Allen, que não baixara a cabeça. Olhou para os vultos paramentados e curvados do Hoshu e dos sacerdotes, e para a imagem acima deles. A presença sólida do Buda não o fazia parecer mais real que a deidade invisível uma igreja cristã, mas também não o fazia parecer menos real. Pois o ar do templo tinha algo de sagrado, não pela presença dos deuses mas pelas preces e lamentos daqueles que lá iam implorar, pedir, e procurar aquilo que não podia ser encontrado. A atmosfera da humanidade estava encerrada ali, procurando alcançar o além inatingível, suplicando a resposta que nunca é dada."

Pearl S. Buck, em "A flor oculta".

07.01.25

"Quanto menos coisas possuo, dizia Zeno, mais ligado me sinto a todas as coisas. E basta-me um calhau para agarrar o mundo, o calhau que devolvo às águas porque as minhas mãos devem permanecer vazias."

Casimiro de Brito, em "Arte da respiração".

06.01.25

Ainda Goethe, no seu diário de viagens por Itália:

Quero ver se faço em breve uma visita ao Jardim Botânico, e espero descobrir aí muita coisa. É bem verdade que nada se compara à nova vida que a observação de uma terra estranha proporciona a um homem pensante. Embora continue a ser o mesmo, acho que se está dar em mim uma transformação que me atinge até à medula.

06.01.25

Goethe, no seu diário de viagem a Itália, numa reflexão suscitada pela observação, salvo erro da minha memória, das intensas festividades do Carnaval de Roma:

"E se nos é permitido continuar a falar de modo mais sério do que o objecto parece permitir, reparamos que os maiores e mais vivos prazeres, como os cavalos que voam, só por um momento os vemos e nos tocam, quase não deixando vestígios na nossa alma, que a liberdade e a igualdade só no delírio da loucura podem ser nossas, e que o maior prazer só é verdadeiramente excitante quando chega bem perto do perigo e nessa proximidade sente o gozo lascivo das sensações mistas de medo e fascínio."

26.12.24

Isso não significa que a única boa conversa numa montanha seja sobre a montanha. Todos os tipos de temas podem iluminar-se a partir de dentro pelo contacto com ela, tal como o são pelo contacto com outra mente, e assim a discussão pode ser interessante. No entanto, ouvir é melhor do que falar. (...) No entanto, muitas vezes, a montanha dá-se mais completamente quando não tenho destino, quando não chego a lado nenhum em particular, quando saio unicamente para estar com a montanha, como alguém que visita um amigo, sem qualquer intenção a não ser a de estar com ele.

Nan Shepherd, em "A Montanha Viva".

26.12.24

O sono diurno também é bom. No calor do dia, depois de nos termos levantado muito cedo, deitarmo-nos, em plena luz do dia, nos cumes e cair no sono e dele sair é um dos luxos mais doces da vida. Porque adormecer na montanha tem o delicioso corolário do acordar. Sairmos da desorientação do sono e abrirmos os olhos para a encosta escarpada e para a ravina, espantarmo-nos porque nos havíamos esquecido de onde estávamos, é recuperar algum desse prístino assombro raramente saboreado. Não sei se é uma experiência comum (não é, certamente, vulgar no meu sono normal), mas quando adormeço ao relento, talvez porque o sono ao relento seja mais profundo do que o normal, acordo com a mente vazia. A consciência de onde estou regressa quase de imediato, mas, durante um breve momento, olhei com surpresa para um lugar familiar como se nunca antes o tivesse visto.

Nan Shepherd, em "A Montanha Viva".

18.12.24

Ainda Martin Latham, nas "Crónicas de um livreiro":

Procuramo-nos reflexivamente uns aos outros na imaginação, através dos oceanos e através dos séculos. Sentimo-nos mais aconchegados numa biblioteca porque todos albergamos o sentimento de que nenhum homem é uma ilha. A biblioteca um sonho de conexão. As ideias sonhadas em massa tornam-se realidade.

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