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Posto de Escuta

Achados numa página ou rua algures.

Achados numa página ou rua algures.

22.09.25

Excerto de "Caminhar Uma Filosofia", de Frédéric Gros.

"Sozinho, depois de ter deixado as máscaras derreterem ao sol dos caminhos, Rousseau também sente nascer em si, transparente, um lago de compaixão. As horas de caminhada secam as invejas e os rancores, à semelhança do que fazem os lutos ou as grandes mágoas. (...) quando caminhamos, acontece algo diferente: não sentimos nada em particular pelo outro, nem agressividade mesquinha, nem fraternidade comunicativa. Apenas uma disponibilidade benevolente ante a infelicidade. O coração dilata-se espontaneamente perante o sofrimento como as pétalas banhadas pelo primeiro raio de sol."

21.09.25

Resumo delicioso de Maria Filomena Mónica da intriga de "Alves & Companhia", de Eça de Queirós, no seu prefácio (Relógio d'Água, 2024):

"De todos, é este o mais amoral dos livros de Eça. A heroína peca, mas acaba feliz. O gala comete adultério, mas continua na firma. O marido traído acomoda-se a tudo e tudo esquece. Os burgueses não tinham grandeza, nem fibra, nem estatura. Portugal surge como um pais banhado por uma maré suja, onde todos tentam sobreviver a qualquer preço. Teríamos de esperar alguns anos para que viesse a público a sua obra-prima, Os Maias, esta, sim, uma tragédia."

18.09.25

Gary Snyder, no seu "A Prática da Natureza Selvagem" (Antígona, 2018):

"Há dois tipos de conhecimento. Um é aquele que nos enraíza e nos situa na nossa verdadeira condição. Sabemos distinguir o norte do sul, o pinheiro do abeto, sabemos em que direcção pode ser encontrada a lua nova, de onde vem a água, para onde vai o lixo, como apertar mãos, como afiar facas, como funcionam as taxas de juro. Em si mesmos, conhecimentos deste género podem engrandecer a vida pública e salvar espécies em perigo. Nós adquirimo-los revivificando a cultura, que é um processo semelhante ao de reabitar: mudar-se para um terreno que foi mal usado e se encontra meio esquecido - e aí replantar árvores, desentubar leitos de rio, partir asfalto. Mas que fazer - dirão alguns - quando já não resta qualquer "cultura"? Resta sempre alguma tal como restam sempre (não importa onde) lugares e línguas. A nossa cultura reside na família e na comunidade, e ilumina-se quando começamos a trabalhar juntos, ou a jogar, a contar histórias, a representar"

17.09.25

Gary Snyder, no seu "A Prática da Natureza Selvagem" (Antígona, 2018):

"A nossa preocupação, e a nossa desavença, mais imediata é com nós próprios. Seria presunçoso pensar que Gaia necessita muito das nossas orações ou das nossas vibrações curativas. Os próprios seres humanos estão em risco - não só num qualquer plano de sobrevivência da civilização, mas, mais basicamente, no plano do coração e da alma. Corremos o risco de perder a alma. Desconhecemos a nossa natureza e estamos confusos a respeito do que significa ser-se humano."

16.09.25

Nan Shepherd, no seu livro "A montanha viva" (Edições 70, 2022):

A inacessibilidade deste lago é parte do seu poder. O silêncio pertence-lhe. Se os jipes o descobrem, ou o funicular o desfigura, parte do seu sentido desaparecerá. O interesse da maioria não é relevante aqui. Por vezes, é necessário sermos exclusivos, não em prol da posição social ou da riqueza, mas sim daquelas qualidades humanas que podem apreender a solidão."

15.09.25

Frances Hodgson Burnett, em "O Jardim Secreto" (Relógio d'Água, 2010):

"Uma das coisas estranhas acerca da vida é que, só de vez em quando, se tem a certeza absoluta de que se vai viver para sempre até à eternidade. Por vezes, sabemo-lo ao levantarmo-nos com o solene e terno nascer do sol, se sairmos e estivermos sozinhos, se inclinarmos a cabeça para trás e olharmos para cima, lá muito para o alto, se observarmos o pálido céu mudando lentamente e ficando vermelho, enquanto qualquer coisa de maravilhoso e desconhecido acontece, até o Oriente quase dar um grito e o nosso coração ficar parado com a estranha e inalterável majestade do nascer do sol- que acontece todas as manhãs há milhares e milhares de anos. Nessa altura, sabemo-lo, durante um momento, mais ou menos. E sabemo-lo às vezes, quando, se estamos sozinhos num bosque ao pôr-do--sol, a misteriosa quietude, profunda e dourada, ao introduzir-se através dos ramos, e por baixo deles, parece estar a repetir lentamente alguma coisa que não conseguimos escutar por muito que tentemos. Só então, mas nem sempre, essa imensa quietude do azul-escuro da noite povoada por milhões de estrelas, confiantes e atentas, o som de uma música distante ou um olhar nos olhos de alguém nos dão essa certeza e a tornam real."

14.09.25

"A alegria não é a contemplação satisfeita de um resultado alcançado, a emoção de uma vitória, a satisfação de ter conseguido. Ela é o indício de uma energia que se exibe no à-vontade, é uma afirmação livre: tudo é fácil. A alegria é uma actividade: executar facilmente que é dificil e que precisou de tempo, afirmar as faculdades do espirito e do corpo. Alegrias do pensamento quando encontra e descobre, alegrias do corpo quando alcança sem esforço. Eis o motivo pelo qual, ao contrário do prazer, a alegria aumenta com a repetição e se enriquece."

Excerto de "Caminhar Uma Filosofia", de Frédéric Gros.

12.09.25

"Também se experimenta na caminhada aquilo a que poderíamos chamar "felicidade". O prazer obtido quando saboreamos bagas selvagens ao longo dos caminhos ou quando sentimos no rosto a caricia de uma brisa. A alegria de caminharmos e de sentirmos o corpo a avançar "como um só homem". A plenitude de sentir que existimos. E depois, a felicidade: um vale violeta sob os raios do ocaso, o milagre dos anoiteceres de Verão, em que todas as tonalidades, esmagadas durante o dia por um sol inclemente, finalmente ressurgem e respiram numa luz dourada."

Excerto de "Caminhar Uma Filosofia", de Frédéric Gros.

11.09.25

Ainda Stephen King:

"Sinto curiosidade em relação ao processo? Dado que tem desempenhado um papel importante na minha vida, claro que sinto. Já escrevi sobre escritores na minha ficção e já escrevi sobre ato de escrever na não-ficção, mas ainda não o compreendo. Nem sequer percebo por que razão as pessoas precisam de histórias, ou por que razão eu, entre muitos outros, sinto a necessidade de as escrever. Apenas sei que o regozijo de deixar o quotidiano para trás e conhecer pessoas que não existem parece ser uma parte da vida de quase todas as pessoas. A imaginação tem fome e precisa de ser alimentada."

11.09.25

Stephen King, no seu livro "Escrever":

"Em relação ao porquê de tantas das minhas histórias serem sobre temas sinistros... Isso é outro assunto. Devo pedir desculpa pelo que escrevo? Penso que não. Francisco Goya fez uma água-forte que o mostrava rodeado de criaturas fantásticas enquanto dormitava, e chamou-Ihe O Sono da Razão Produz Monstros. Sempre achei que tal sono e tais monstros são uma componente necessária da sanidade. (Espreitem a primeira frase de A Maldição de Hill House, de Shirley Jackson: ela expressa--o bem.) Histórias de terror são apreciadas da melhor maneira por aqueles que demonstram compaixão e empatia. Um paradoxo, mas um que é verdadeiro. Acredito que são os desprovidos de imaginação entre nós, aqueles incapazes de apreciar o lado negro do faz-de-conta, que têm sido responsáveis pela maioria das angústias do mundo. Em histórias do sobrenatural e paranormal, esforcei-me particularmente por mostrar o mundo real como é, e por contar a verdade sobre a América que conheço e adoro. Algumas dessas verdades são desagradáveis, mas, como diz o poema, as cicatrizes tornam-se sinais de beleza quando há amor."

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